Os Relatos:
Estes foram os fatos. Agora vamos supor que Pseudea irá falar a respeito deste encontro para sua amiga e seu noivo. Como falaria? Restam poucas dúvidas sobre isto. Ela faria relatos muito diferentes. Para a amiga contaria tudo o que aconteceu ou que supõe haver acontecido ou que gostaria que tivesse acontecido. Falaria sobre o tipo físico do seu admirador: um gato. E não esqueceria de contar que ele sentou ao seu lado estando o ônibus praticamente vazio. Falaria sobre sua conversa inteligente, sobre os elogios que recebeu, sobre as confidências etc. Não esqueceria de falar sobre sua insistência para que tivessem um encontro (talvez exagerasse um pouco nesta parte) e sobre a vontade que teve de aceitar o convite (e ai, deixaria claro que não esqueceu que é noiva; mas se não fosse...). Finalmente, talvez como prova, mostraria o cartão. Para o noivo faria um relato diferente. Inicialmente falaria sobre a inconveniência que é viajar de ônibus hoje em dia. E como exemplo, contaria um fato que aconteceu ontem. Um sujeito sentou-se ao seu lado e ficou tentando conversar com ela o tempo todo (ela só não mudou de lugar porque o ônibus estava cheio): falaria sobre sua ousadia ao fazer perguntas indiscretas (se não estivesse atrasada, saltaria do ônibus ali mesmo). Falaria também sobre a irritação que tal comportamento provocou; sobre a voz desagradável do sujeito. Sobre o que ele disse? Não sabe. Aliás nem prestou atenção. Não falaria sobre o seu tipo físico porque nem mesmo olhou para ele. Fica evidente que, tomando-se o acontecimento como referência, Pseudea mentiu para seu noivo e também para sua amiga ou, pelo menos, não foi totalmente verdadeira.
A Moral:
Quero falar sobre fatos e relatos, sem me importar com a concordância entre eles. O relato está carregado de subjetivismo e é basicamente definido pelo contexto dentro do qual se manifesta. Quando me comunico, não estou apenas transmitindo informações, mas, ao mesmo tempo sugerindo para o outro, uma forma de me perceber. Estou sobretudo falando de mim mesmo, ainda que esteja falando sobre você. Quero que você pense o que eu quero que você pense sobre mim ou Quero que você me veja como eu quero ser visto por você. Pseudea não é apenas Pseudea. É Pseudea e suas relações, seus sonhos, sua história, suas alegrias, suas tristezas, suas verdades, que podem ser mentiras e suas mentiras, que podem ser verdades. Quando Pseudea fez seu relato tanto para sua amiga quanto para seu noivo, estava também falando dela mesmo. Para sua amiga, por exemplo, poderia estar falando de suas qualidades femininas. Para o noivo, de seu próprio amor por ele, de sua fidelidade e talvez lembrando que ele deve tomar cuidado. Afinal de contas, certas coisas sempre podem acontecer. Não sei exatamente qual o seu propósito, mas é muito provável que esteja marcando ou remarcando seu próprio território .
Publicado em 19 de setembro de 2003 às 16:35 por jordan